O padre dos massacres de Ruanda envergonha a França

3 de março de 2010 Processocom

IHU – 03/03/2010

A igreja de Bourg-Saint-Andéol, em Ardèche, na França, tem proporções imensas. A luz entra pelos grandes vitrais, impetuosa, e depois se recolhe e se perde nas naves. Quantas vezes o padre Wenceslas Munyeshyaka (na foto, à esquerda), padre cooperador e capelão dos escoteiros, pensou, ao elevar a hóstia durante a missa, em uma outra igreja: em Nyamata, a região mais triste do seu país natal, a Ruanda.

Lá, onde em apenas dois dias, há 17 anos, os “interahamwe”, os algozes do genocídio trucidaram a golpes de facão mais de 2.000 tutsis que buscavam, em vão, proteção aos pés do crucifixo. Os dois sacerdotes, italianos, responsáveis pela missão, haviam fugido, e um deus de madeira não protege ninguém.

A reportagem é de Domenico Quirico, publicada no jornal La Stampa, 26-02-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Aos assassinos hutus doíam os braços, por causa da fúria de usar o machete. Quem contou isso foi um deles, algumas semanas depois, quando os tutsis que se recuperaram o capturaram: “Não é tão fácil matar. É preciso dar muitos golpes no crânio. A maior parte das pessoas se recusava a morrer”.

Passaram-se 17 anos desde que a “rádio da morte”, no amanhecer do dia 07 de abril, colocou em ação a máquina do extermínio, e os milicianos, com a lista das vítimas no bolso, se espalharam como um enxame de abelhas, matando e saqueando. A rádio da morte tocava a Marselhesa, para saudar as tropas francesas que, do vizinho Zaire, vinham em socorro em nome da “Franceafrique”, a operação “turquesa”, assinada por Mitterrand.

Sarkozy estava ontem na Ruanda para buscar apagar essa lembrança, para fazer uma honrável penitência de um erro. Wenceslas, refugiado na França, atravessou esse inferno humano: mas como? Como carnífice ou como vítima?

Olhando-o enquanto fala com os seus novos paroquianos, enquanto celebra a missa, entende-se o significado de um enigmático verso de Rilke nas “Elegias de Duíno”: “Dos Anjos, cada um é tremendo”. Entende-se até que ponto as trevas podem envolver o coração de todos nós.

Depois de tanto tempo, ainda não sabemos se esse padre um dia abriu a porta da sua igreja e entrou na Noite. O padre ruandês é aquele que, com ar arrogante e um colete a prova de balas, ao lado de um militar, como aparece em uma foto publicada em 2007 pela revista francesa Témoignage Chrétien, tirada na primavera de 1994, em pleno genocídio? Ou é um fugitivo amedrontado e inocente salvo com outras dezenas de padres e seminaristas ameaçados pela vingança cega dos tutsis vencedores? Alguém que salvou vidas, como afirma o bispo que o ajudou a vir para a França, a pedido dos Padres Brancos, os missionários então poderosíssimos na Ruanda? Ou o infame que salvou algumas moças tutsis, mas só em troca dos seus favores, como gritam os acusadores?

Para responder a essas perguntas inquietantes até o espasmo, a justiça, aquela nossa, humana, não nos ajuda. A justiça ruandesa não tem dúvidas: em 2006, condenou-o à prisão perpétua, como cúmplice dos massacres. Não era, talvez, um colaborador do bispo de Kigali, Vincent Nsengiyunmva, um fanático do regime hutu, julgado sumariamente pelos soldados tutsis?

Na França, prenderam-no duas vezes, em 1995 e depois em 2007, mas nunca o julgaram. O governo sempre impediu os magistrados que o pedem em nome do tribunal internacional. Até o seu dossiê administrativo, em um país obsessionado pela caça aos “sans papiers”, é um purgatório imóvel, suspenso às escolhas e aos desenvolvimentos da política africana da França: não refugiado político, não clandestino.

A França, por causa dessa inércia judiciária, foi condenada pela Corte Europeia. A Igreja na Ruanda não foi economizada ao ódio. Centro e trinta padres foram mortos, e muitos sem que o amor pelos outros se enfraquecesse. Mas há também os casos inversos, os pusilânimes, e os cúmplices. Nem todos ouviram a voz do Papa João Paulo II, que, naqueles dias, foi uma das primeiras personalidades a romper o silêncio sobre o massacre.

Entre os condenados pelo genocídio, Munyeshyaka não está sozinho. Foi, no fundo, a suprema astúcia dos assassinos. Criar uma comunhão criminosa, um sentimento de culpa coletivo, de forma que cada um, com um ou mais mortos na consciência, sentisse suspensa sobre si a lei do talião.

Em Gisors nell’Eure, a sua nova paróquia, há o odor de grama úmida, o céu está claro, verde e azul, cores carnosas. Padre Wenceslas se recusa a nos ajudar a acreditar nele: “Responderei apenas ao juiz, quando e se me convocar de novo, apenas ao representante da França”. Nestas horas, talvez, ele ouve o rádio: sabe que o seu destino está ligado ao que dirão entre si, lá em Kigali, Sarkozy e o terrível presidente ruandês Kagame: se encontrarem um entendimento político, a França o entregará: para se lavar a consciência, para não ter mais remorsos, para agraciar os vencedores. E nós nunca saberemos se há 17 anos o coração de Cristo bateu no seu ouvido ou se, como Judas, foi amado exatamente o suficiente para que a sua traição fosse imperdoável.

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