Os zumbis e o cinema de horror

3 de dezembro de 2009 Processocom

Dafne Pedroso

Eu nunca gostei de filmes de zumbis, mas sempre achei interessante o delírio dos fãs por tal subgênero. Por que diabos as pessoas cultuam filmes onde cadáveres em decomposição se arrastam, gemem e comem miolos? Foi, então que, para um seminário da disciplina de Narrativas tecnológicas: cinema, TV, vídeo e internet na era digital, do Prof. Carlos Gerbase (PPGCOM/PUCRS), decidi fazer um resgate sobre esses filmes e entender um pouco mais dessas criaturas. A idéia inicial era abordar o tema cinema e morte, mas como eu e uma colega queríamos tornar isso um pouco mais divertido, optamos por trabalhar com zumbis e vampiros.

Cánepa (2008) nos lembra que na década de trinta se inicia o processo que vai constituir o horror enquanto gênero cinematográfico. Um dos eixos dessa indústria seria o chamado Cinema B, caracterizado pelo baixo custo de produção e exibição em áreas periféricas das cidades. Além disso, esses filmes tinham alguns elementos formais em comum, “seus recursos eram muito escassos (mesmo que precisassem de efeitos especiais), seu gênero era bem definido, sua duração era determinada (não passava de 100 minutos), seu ritmo era ágil (para não sobrecarregar o espectador para o segundo filme)” (CÀNEPA, 2008, p. 57). O boom desse horror B teria acontecido com Drácula (1931), estrelado por Bela Lugosi e Frankenstein (1931), mas os filmes com zumbis também contribuíram para a constituição desse gênero.

Em 1932 estréia o primeiro filme com zumbis que se tem notícia. White Zombie (1932), de Victor Halperin, que também contava com Bela Lugosi no elenco. A trama se passa no Haiti, os zumbis estão ligados aos rituais de vudu e as pessoas se transformam em mortos-vivos depois de beberem uma poção. Esse modo de retratá-los vai permear outras obras do período como Revolt of the Zombies (1936) e I walked with a zombie (1943). Os zumbis estavam entre os outros monstros representados nos filmes de horror B, assim como Drácula e Frankenstein.

Cena do filme “A Noite dos Mortos Vivos” (1968)

Entretanto, é no final da década de 60, que o cineasta George Romero radicaliza a experiência do horror. Em A noite dos mortos vivos (1968), ele traz os zumbis que nós conhecemos, os corpos putrefatos, o caminhar lento e em bandos, os grunhidos, o canibalismo, a contaminação pelas mordidas e pela saliva, a cabeça como o ponto fraco dessas criaturas, muito sangue e gritaria. Cánepa (2008) relata que o fracasso do filme nos cinemas de shopping e a circulação nas exibições alternativas contribuiu para o que se chamou de cinema de culto, fenômeno da década de 70. A obra de Romero, diz a autora, unia os zumbis à violência explícita, crítica social, sátira política, fazendo com que o filme nascesse em meio à polêmica, marca dos cult movies.

São muitos os filmes de zumbis, sobre zumbis e com zumbis. Dos mais realistas e aterrorizantes às sátiras mais engraçadas. Atualmente, alguns mantêm as “regras” dos zumbis de Romero, mas também vemos as criaturas ágeis, muito longe daqueles que se arrastavam por aí. A garotinha morta-viva de REC (2007), por exemplo, é uma exímia corredora, assim como os outros tantos que estão naquele prédio contaminado.

Para os aficionados pelo subgênero a paixão se mantém. É só acompanhar as divertidas caminhadas dos zumbis por todo o mundo, as chamadas zombie walk onde os fãs, cobertos por sangue de mentira, muita maquiagem e roupas rasgadas, percorrem as ruas em bando, se arrastando, gritando por miolos e assustando os desavisados. E eu, que nunca gostei dos zumbis, até tenho achado divertido. Vida longa aos mortos-vivos.

Bibliografia:

CÁNEPA, Laura Loguercio. Medo de quê? – uma história do horror nos filmes brasileiros. 2008. Tese (doutorado) – Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, [2008]. Disponível em: < http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000446825>. Acesso em: 24 de Nov. 2009.

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