Rúmos Dança – reflexões de um processo

23 de novembro de 2009 Processocom

Stéfanie Telles

O edital do Itaú Cultural – Rumos Dança deste ano, com o qual fui contemplada, propõe não somente a realização da pesquisa em dança, mas também a criação e manutenção de um blog para o compartilhamento deste processo de pesquisa. O blog é uma novidade neste edital. Em nenhuma outra edição esta ferramenta foi utilizada, o que torna o seu uso algo a ser pensado/questionado. E, ao atualizá-lo semanalmente há pouco mais de um mês (o que ocorrerá durante seis meses), comecei a refletir sobre as configurações que se instauram entre processo e produto no fazer artístico.

A relação processo/produto é compreendida de diferentes formas no meio artístico. Uma parcela compreende o produto como algo fechado, sem possibilidades de mudança, portanto uma obra que, após sua estréia, deixa de estar acessível. Talvez por essa compreensão de imobilidade do produto, muitos artistas deixam de compartilhar com o público suas obras e que permaneçam eternamente em “processo”; temendo a perda de valor e de importância de seus trabalhos quando estes entram no mercado.

Contrários à defesa da arte como um processo sem finalização, encontramos aqueles (e me incluo nesta parcela) que compreendem a criação como um processo de interesse do artista e não do público. Mas que acreditam que, para tornar-se completo no sentido de configurar-se como arte, deve ser compartilhado, consumido e, portanto, deve se tornar um produto. Sem a necessidade de compreendê-lo como algo finalizado e sem retorno, e sim como algo que incorpora referências e se transmuta a cada encontro com o espectador.

O blog proposto pelo edital talvez entre em uma esfera que artistas de performance (dança, teatro, música) não tenham domínio. E mesmo aqueles que têm, o executam em etapas de conclusão do processo, de divulgação ou de apresentação de suas obras. Dificilmente utilizam este tipo de ferramenta para compartilhar processos iniciais e decorrentes.

Utilizar um blog para compartilhar o processo de pesquisa desde o seu princípio, portanto, expondo dúvidas, incertezas, questionamentos, posições, preferências, escolhas, não torna o processo um constante produto configurado por cada post? A partir do momento que se torna público, o post de um processo não seria um produto consumido em instâncias prematuras e inacabadas? De que maneira isso pode ser positivo para o próprio processo e até para o produto “final”? Isso realmente é de interesse do público? Que público seria esse? E quais seriam os benefícios desse compartilhamento equivocado para a arte? E para o artista?

Essas são questões que me acompanham na relação processo/produto nos fazeres desta pesquisa, para as quais quero encontrar respostas ao final destes seis meses. Sigo no desafio de transpor movimentos em palavras, de compartilhar e expor minhas dúvidas e incertezas, sem medo dos possíveis julgamentos. Aprendizados positivos e negativos, com certeza, se farão presentes no decorrer deste processo – ou diria, em meio a estes produtos?

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