Sobre a exigência de diploma universitário para jornalistas, à luz de Pierre Lévy

9 de novembro de 2009 Processocom

Taís Seibt

Desde que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) derrubaram a exigência de diploma universitário para jornalistas, reverberam artigos e debates sobre o tema, especialmente no âmbito acadêmico. A notícia de que frequentar a faculdade de comunicação não é mais pré-requisito para exercer a profissão tem levado professores e estudantes de jornalismo a procurar argumentos que sustentem a ideia de que diploma não é tudo. Particularmente, encontrei conforto ao ler “O que é o virtual?”, de Pierre Lévy.

À luz do intelectual francês, pode-se questionar a validade do diploma enquanto “modo clássico de reconhecimento dos saberes” por pelo menos três motivos: primeiro, embora cada um saiba alguma coisa, nem todos têm diploma; segundo, as pessoas que têm o mesmo diploma não têm as mesmas competências, sobretudo por causa de suas experiências diversas; terceiro, os diplomas estão vinculados a universidades ou, no máximo, a Estados, e não há sistema geral de equivalência entre diplomas de países diferentes.

O diploma, nessa ótica, seria nada mais que um instrumento para a satisfação simbólica dos indivíduos na sociedade, uma forma de identificar e reconhecer competências de maneira convencional. Mas, “num sentido profundo, as competências dos indivíduos são únicas, ligadas a seu trajeto de vida singular, inseparáveis de um corpo sensível e de um mundo de significações pessoais” (LÉVY, 1996, p. 90).

É apenas uma outra forma de se dizer que a qualidade do profissional – tendo ele diploma ou não – é que vai determinar sua colocação no mercado de trabalho. Desde sempre, o bom jornalista se destacou dos demais pelo modo como soube fazer interagir sua subjetividade com o exercício da profissão.

É quase um contrasenso falar em subjetividade no jornalismo, afinal essa profissão perseguiu o sonho da objetividade durante muito tempo. Só que dar vazão à subjetividade nem sempre significa tomar partido ao abordar um assunto. Antes, trata-se de um esforço particular do jornalista para que o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta não seja obrigado a consumir mais do mesmo na programação. E isso só é possível ao profissional que coloca sua experiência de vida a serviço de sua carreira.

Dito em outras palavras, o diploma é o elemento que “padroniza” os jornalistas. O que diferencia uns dos outros são as competências individuais – aquelas que não se aprende na faculdade. Assim, a decisão do STF não é ainda o fim do mundo.

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