De vivências e reflexões

8 de outubro de 2009 Processocom

Graziela Bianchi

Tente se imaginar em um lugar onde tudo parece (e é) muito diferente daquilo que já viveu até então.

Foi exatamente assim que me senti quando cheguei a Barcelona, em janeiro de 2009, para um período de seis meses de doutorado-sanduíche.

Eu não conhecia a Europa. As viagens que tinha feito para fora do Brasil haviam sido na América do Sul mesmo, e muito rapidamente. Tudo para mim foi diferente: saí de um calor de 40 graus do verão gaúcho, para chegar com termômetros que, às 13 horas, marcavam menos de 10 graus.

O idioma então é um capítulo à parte. Por mais que você tenha estudado (inclusive, existe a exigência da proficiência na língua para obter a bolsa de estudos no exterior), o estranhamento relacionado à necessidade de falar o tempo todo de uma maneira que você nunca falou antes é inevitável.

Depois, vêm os “bons estranhamentos”. Vivenciar uma realidade que, para nossos atuais padrões brasileiros, parece inimaginável, foi incrível. Fizeram parte dessa experiência, caminhar tranquilamente pelas ruas, a qualquer hora da noite ou do dia, sem se preocupar com coisa alguma. Era comum ver, na madrugada, senhores idosos, passeando calmamente pelas calçadas com seus cachorros. Essa, sem dúvida, foi a mais impactante diferença social que vivi: a de viver sem o fantasma da violência eminente. Tiveram também os impactos das “coisas que funcionam” (serviços em geral). Dificilmente a gente se estressa com aquilo que “deveria ser e não é”, ou seja, se você tem um direito, lá ele é respeitado.

Quando regressei, me questionaram se eu havia sentido alguma espécie de preconceito, por ser uma estrangeira em Barcelona. Se eu dissesse que sim, estaria mentindo. O que eu senti, e isso foi uma grande surpresa para mim (e também uma verdadeira lição de autoconhecimento), foi um estranhamento muito grande de minha parte, relacionado à vivência em uma cultura bastante distinta da minha.

E nesse sentido, posso elencar aspectos bem elementares, como: os horários das refeições (bem como da abertura e fechamento comércio em geral), as comidas (uma cozinha onde, no dia a dia, arroz só se encontra na paella), o modo de ser das pessoas (de cumprimentar, de conversar, se relacionar). Confesso que nunca imaginei que essas questões, que parecem tão básicas, pudessem me afetar tão profundamente.

A experiência foi incrível e muito válida. Eu recomendo que os estudantes que puderem, realizem o doutorado-sanduíche. É uma vivência muito rica no plano acadêmico. Para a vida, é um capítulo simplesmente inesquecível.

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