Miolo com desconto, tem?

24 de setembro de 2009 Processocom

Martina Fischer

Há pouco, iniciei meu segundo semestre como professora da disciplina de Promoção de Vendas. Trata-se de uma cadeira do curso superior em Gestão Comercial. E o que segue chamando minha atenção, depois de vários meses buscando, nas livrarias, bibliotecas e especialmente internet, insumos para os encontros com os alunos, é a parca bibliografia acadêmica sobre o assunto, especialmente quando colocamos no centro da discussão a comunicação.

Basicamente, o que tenho localizado (e usado em sala de aula) são manuais sobre o assunto. Bastante completos, quando se trata de elencar ferramentas, explicando cupons, coleções, descontos, promoções, sorteios e afins. São inclusive livros bastante interessantes para os alunos, na medida em que foram escritos por gente que está na linha de frente da implementação dessas estratégicas. Há muitas histórias de sucesso, os famosos e fabulosos “cases”, que enchem os olhos dos estudantes. Mas são livros em que sobra sucesso e brilho e falta crítica. Obras interessantes, porém rasas quando queremos entender não só o que acontece, mas como os fenômenos se dão.

Sinto falta de alguns aprofundamentos, quando é preciso tratar da linha de frente da comunicação persuasiva. Não na perspectiva da administração ou do marketing, não do be-a-bá do faça-você-mesmo, mas sim pelo viés dos estudos em comunicação. Queria reconhecer alguns dos autores que me foram tão caros no mestrado no momento de preparar as aulas. Queria mais convidados para o encontro que se dá no cruzamento da venda pessoal com a publicidade. Queria ver Debord, Bauman, Foucault, Baudriallard, Lipovetsky e muitos outros, mais próximos do shampoo com rinse grátis, dos cupons colecionáveis que dão direito a um conjunto de potes de sobremesa, do ponto vermelho que dá 30% de desconto. Pode parecer leviano falar assim, mas é sério. Seríssimo. O mercado nos cerca, nos oprime e nos devora. O capitalismo está aí, se alimentando dos nossos sonhos e frustrações. E nós vamos ficar apenas querendo saber se o capitalismo no momento se vale da técnica A ou da tática B? Será que tanto merece tão pouco penso? Será mesmo que isso é o bastante?

Imagino que a essas alturas você estará se perguntando: mas então por que ela (eu) não promove esse encontro do grito de “vamos chegar, freguesa, que é só hoje” com o espetáculo líquido opressor pornográfico hipermoderno? Boa pergunta, digo eu. Por que não escrevo mais sobre isso?

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