Telesur – A informação e a cultura como rizoma da integração latino-americana

13 de agosto de 2009 Processocom

Artigo produzido pelo pesquisador Elson Faxina publicado no jornal LE MONDE DIPLOMATIQUE/BRASIL, edição de agosto:

A primeira libertação de reféns pelas FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – no comecinho de 2008 já havia introduzido a Telesur, então com pouco mais de dois anos de atividades, no sistema informativo mundial. As imagens da emissora multiestatal, que surge com o lema “Nosso Norte é o Sul”, cruzaram o mundo, com tom próprio e postura divergente do que se costumava ver até então num grande veículo de comunicação. Telesur postou-se de cara na outra margem do fluxo de informações que escorria livre, leve e solto mundo afora; colocou-se na contracorrente da grande mídia comercial.

Um ano e meio depois, a cobertura que Telesur fez antes, durante e pós golpe de estado em Honduras, deflagrado em 28 de junho deste ano, não deixou dúvidas de que a emissora, proposta pelo presidente Hugo Chavez e surgida da parceria entre Venezuela, Argentina, Cuba e Uruguai, já galgou seu lugar na história da informação na América Latina. “O profissionalismo, o patriotismo, o sentido do dever e a responsabilidade com nossos telespectadores se desabrocharam em Tegucigalpa pelo trabalho das equipes da Telesur”, confidenciou-me o cubano Ovídio Cabrera, diretor-geral da emissora. De fato, se Telesur não tivesse feito a cobertura dos fatos em Honduras o mundo não estaria inteirado do latrocínio que se cometeu ali.

Foi uma cobertura singular, de uma TV que assume a postura que tem, que não se esconde no hipócrita e lúgubre escudo da imparcialidade. Havia uma equipe da Telesur no avião do presidente deposto, Manuel Zelaya, que não pode pousar devido à violência dos golpistas, afirma Beto Almeida, diretor de Telesur no Brasil. “E esta é uma das páginas da história da América Latina, que Telesur está ajudando a escrever, com o risco que seus profissionais correm. Onde estava a CNN? Na casa de Michelletti? Onde estavam a Globo e até mesmo a TV Brasil? Dizendo que Zelaya não foi vítima de golpe, que ele é que queria eternizar-se no poder”, ressalta o jornalista brasileiro.

Destacados de outras tantas coberturas, fundamentalmente nos países que sofrem com a postura inconfessa, porém tendenciosa, da mídia comercial, esses dois fatos possibilitaram à Telesur entrar na sua maioridade, ainda antes de completar seu quarto aniversário. Nada mais coerente com a proposta inicial para a qual foi fundada. Nascida em 24 de julho de 2005 – não por acaso aniversário de nascimento de Simon Bolívar – a emissora veio para fazer o papel contra-hegemônico à mídia comercial. “Nosso objetivo é romper o bloqueio midiático que as televisoras privadas, a serviço das oligarquias nacionais e do imperialismo norte-americano tinham e têm sobre nossos povos”, afirmou seu diretor-geral no Fórum Social Mundial em Belém, Pará. Esse domínio informativo, disse ele, faz com que se oculte informações, se manipule e se esconda os problemas fundamentais que enfrentam hoje nossa sociedade. E é o modelo seguido à risca pela grande mídia comercial no continente.

É com esse propósito que Telesur define sua programação e prioriza suas transmissões especiais. “As coberturas sobre o conflito colombiano e no caso Honduras têm sido especialmente marcantes, porque oferecem uma oportunidade para mostrar distinção em relação à mídia comercial”, afirma Efendy Maldonado, jornalista equatoriano radicado no Brasil, doutor pela USP e professor de pós-graduação da Unisinos, no Rio Grande do Sul. Para ele, são decisivas também as coberturas sobre os processos políticos de mobilização e apoio popular aos processos de mudança, tanto em termos constitucionais quanto na realização de projetos concretos como a ‘operação milagre’, que já livrou da cegueira gratuitamente dezenas de milhares de latino-americanos, e dos processos de alfabetização, que levaram a Unesco a decretar Venezuela e Bolívia territórios livres do analfabetismo. É “a desmontagem das coberturas distorcidas das mídias comerciais”, destaca Maldonado.

Rede latino-americana, mas o Brasil resiste

Com sede em Caracas, Venezuela, Telesur se consolida como uma rede latino-americana de comunicação que conta hoje também com a participação da Bolívia, Nicarágua e Equador, e novos países devem integrar-se em breve, como é o caso do Paraguai. O Brasil resiste a integrar a rede, e isso tem a ver, segundo o cientista político, professor e pesquisador da USP, Rafael Duarte Villa, “primeiro, com a falta de visão estratégica do governo brasileiro sobre a importância de um canal de TV estatal para firmar a ideia da integração, como a Europa Ocidental entendeu há muito tempo. Sem comunicação não há processo possível de integração política, econômica e social”. Um segundo aspecto que pode explicar a posição do governo brasileiro é que a Telesur tem uma imagem muito vinculada ao governo da Venezuela, “e então outros fatores, como a suposta disputa pela liderança sul-americana, entraram em cena”, diz Rafael.

Contudo, decidida a irradiar-se por todo o continente, Telesur assinou convênios no Brasil com a emissora público-estatal comandada pelo governador Roberto Requião, a TV Paraná Educativa, bem como a TV Cidade Livre, que é o canal comunitário de Brasília. Esta transmite com freqüência o sinal direto de Caracas, como foi o caso da cobertura do golpe de estado em Honduras. Já a Paraná Educativa, presente nacionalmente pelo canal 115 da Sky e captada por antena parabólica em toda a América Latina, trabalha em duas frentes. Desde fevereiro de 2008 retransmite de segunda a sexta-feira, das 19h45 às 20h15, o Telesur Notícias, um telejornal dublado ao português, por uma equipe de jornalistas brasileiros na Venezuela. Trata-se de um olhar diferenciado, com notícias pouco vistas nas emissoras comerciais, e quando vistas trazem um outro foco. “Só agora eu comecei a me dar conta de como a gente é ignorante sobre o que acontece na América Latina”, diz Deoclécio de Lima, de Betim, Minas Gerais, ao ironizar: “Primeiro eu vejo a Telesur, e em seguida (às 20h15 começam os telejornais de duas grandes emissoras nacionais) vou ver o que os outros dizem de mentira ou escondem de nós”. Deoclécio, sem saber, confirma o que disse o jornalista argentino Carlos Aznárez, ao referir-se a Telesur durante o Encuentro Latinoamericano vs Terrorismo Mediático: “os que têm a sorte de acessar este canal podem inteirar-se, por simples dedução e comparação de textos e imagens, quanto e como nos mentem diariamente a cadeia do terrorismo midiático”[i]. Para ele, Telesur veio para trazer ares novos dentro de tanta atmosfera contaminada, e “nesse curto tempo de existência (na época com apenas dois anos e oito meses) já deu boas mostras de que ouvir as outras vozes e difundir a informação que os meios convencionais ocultam servem para ir erodindo aos poucos o muro do discurso único”.

Talvez aqui se encontre o maior serviço que Telesur vem prestar ao jornalismo latino-americano. Essa programação comprometida com certas linhas de pensamento, políticas de Estado e práticas econômicas e sócio-culturais, voltadas aos mais necessitados, vem exatamente expor as mentiras implícitas, transvestidas de verdade, com que o jornalismo de mercado se consolidou nas últimas décadas. Ao assistir Telesur e compará-la à televisão privada, impossível não lembrar de A roupa nova do imperador, de Hans Christian Andersen, e gritar, em vez do rei, que “A rainha está nua”. São eclodidas as três grandes mentiras que revestem a entronada mídia privada: imparcialidade, isenção ideológica e sinonimia de mídia privada e mídia livre.

Aliás, nada mais ideológico do que a negação peremptória da ideologia. “Todo discurso tem ideologia, inclusive o científico”, reitera o pesquisador Efendy Maldonado. Toda comunicação, não importa qual, expressa um conjunto de ideias, resta saber quais são elas e a que cosmovisão atende. Para Rafael Villa, o discurso hegemônico da mídia comercial é a predominância da ideia de que a mídia deve refletir os valores políticos da democracia liberal do ‘mundo livre’. Esta é uma visão tão equivocada quanto autoritária, diz ele, porque “de antemão já etiqueta os que fazem um ‘jornalismo legítimo’ – os que refletem os valores do mundo livre – daqueles que não o fazem – o resto. Assim a mídia trabalha com uma missão e vocação política, não com uma função pública e pluralista, que nega a própria essência pluralista da palavra livre”.

A malha de Telesur

Apesar da tenra idade, Telesur é hoje uma rede que tem correspondentes em quase todos os países da América Latina, além dos Estados Unidos. Firmou parceria com umas três dezenas de emissoras de várias partes do mundo, entre elas a TV Al-Jazeera, do Qatar. Seu sinal está na Venezuela e em diversos canais na Argentina, Bolívia, Cuba, Uruguai e Madri, na Espanha, e começa a chegar ao Equador e Nicarágua, além do Brasil e pode ser acessada por antena parabólica e no sítio http://www.telesurtv.net. Contudo, a dificuldade de acesso por seu público preferencial ainda é um desafio que tira o sono da direção de Telesur e precisa ser superado.

Na realidade, este não é um problema exclusivo de Telesur, mas um desafio posto há muito tempo para todas as TVs público-estatais. No Brasil, por exemplo, a ironia é enorme. Foi com recursos públicos que a principal TV privada pode montar uma malha de distribuição de sinal, que a possibilita estar há tempos nos mais longínquos grotões do país. Esta sempre foi a lógica brasileira: expandir as redes privadas com recursos públicos. Não à toa, passa de um bilhão e meio de reais o investimento anual do governo federal, envolvendo a administração direta e indireta, na mídia comercial. Os argumentos objetivos são muitos: anunciar seus feitos e produtos; já os subjetivos… Fato é que o governo federal titubeia até hoje em estabelecer uma malha de transmissão de sinal que permita sua televisão público-estatal atingir os quatro cantos do país! Aliás, nem sequer compromete as TVs a cabo a veicular a TV Brasil em sua malha nacional.

Contudo, nada de reclamar. Nas hastes de Telesur a consigna é revelar outras verdades, outra versão dos mesmos fatos, difundir outros acontecimentos, importantes embora ignorados pela grande mídia comercial. A percepção clara é a de que uma integração latino-americana não se dará unicamente pelos acordos oficiais que se firmam a cada nova reunião. Depende de que esses povos queiram integrar-se, e isso só é possível a partir da construção de uma cultura de integração. E numa sociedade cada vez mais midiatizada a ação dos veículos de comunicação é crucial na construção de uma nova auto imagem no próprio continente. Afinal, não se pode querer o que não se conhece ou o feio, o porcalhão, o maltrapilho, o atrasado, o indigente, o pouco sério. E a cobertura da mídia comercial, na opinião de Efendy Maldonado, é muito prejudicial ao nosso continente. “As pesquisas sistemáticas que temos feito durante duas décadas mostram o caráter destruidor, preconceituoso, racista, redutor e xenofóbico de boa parte da produção comercial sobre América Latina. A negação da alteridade e de um projeto comum para nossa América, promovendo a subserviência ao poder estadunidense, tem sido o modelo da produção midiática sobre a região”. Para ele, os discursos dessa mídia apresentam as nações vizinhas como inimigas. “Para os brasileiros, os bolivianos, paraguaios e argentinos são vistos como contrabandistas, traficantes, aproveitadores econômicos; para os colombianos, os equatorianos e venezuelanos são representados como cúmplices do ‘terrorismo’. Em toda a América Latina o modelo é similar e segue a lógica da separação, da negação, da destruição simbólica do outro. Isso é gravíssimo e a Telesur é imprescindível para mudar essa realidade midiática”.

O cientista político Rafael Duarte Villa destaca que essa cobertura é perpassada pela visão político-editorial das emissoras, e que se trata de uma cobertura que “carece de qualidade na medida em que é feita ainda, na maior parte dos casos, na base de um jornalismo que pesquisa pouco e de achismos absurdos”, o que leva a uma combinação nociva de comunicação enviesada e formação de opinião pública espúria e imprecisa.

Nosotros, si, podemos!

Essa negação do continente através da sonegação de informações importantes e deturpações de fatos sobre a América Latina é a tônica da mídia comercial. O povo latino-americano não só desconhece os milagres da ‘operação milagre’ e do programa de alfabetização “Yo, sí, puedo’, como desconhece que a Bolívia já recuperou grande parte da soberania sobre sua própria riqueza; que o Equador fez o mesmo e ainda realizou uma auditoria de sua dívida externa e já economizou mais de dois bilhões de dólares, cobrados irregularmente, além de determinar a retirada da base norte-americana de Manta, reassumindo sua condição de país soberano. De fato, se dependermos da mídia privada não conheceremos estas e outras infinitas conquistas e verdades sobre nossa América. Antes ficaremos achando que Chavez, eleito democraticamente, é um ditador, e Felipe Calderón, cuja eleição foi fruto de fraude eleitoral[ii], é presidente inconteste do México.

É para dar respostas a essas demandas por uma comunicação com cara e sotaque latino-americanos que a Telesur se muniu de equipamentos de última geração e montou uma grade de programação variada, mas tendo como marca forte noticiários e documentários de todo o continente. De hora em hora há boletins atualizados com informações internacionais e foco principal na América Latina. O lúdico também está presente, numa programação diária salpicada de esportes e manifestações culturas latino-americanas, ao que se somam filmes e documentários próprios e de produtores independentes. Ovídio Cabrera diz que uma das coisas mais importantes para a equipe de Telesur, com cerca de 500 profissionais, é a moral de defender uma causa justa, dos mais humildes e despossuídos, de dizer a verdade, sem ocultar nada, dando as várias versões de um mesmo fato, e suficiente voz aos agredidos, aos explorados, aos que nunca puderam falar e denunciar, aos que sempre lhes foi vedado esse direito.

O fato é que uma TV público-estatal, ou multiestatal como é Telesur, é condição para se construir uma democracia de fato. Para Efendy Maldonado, Telesur é uma garantia de informação mais democrática. “A exclusividade da informação, o controle hegemônico tem um contraponto, um espaço e uma produção que oferece alternativas de verdade, de humanidade, em face de uma cultura da violência exorbitante nos meios comerciais”. Ovídio lembra, no entanto, que “tudo o que fazemos não é a partir de um olhar alternativo. É uma visão própria, real, balanceada, de justiça social, que interpreta não os grandes interesses senão os interesses dos povos”.

Nessa empreitada latino-americana Telesur tem apoiado novas experiências de TV Público-estatal. Bolívia, Equador, Nicarágua e proximamente Paraguai são alguns exemplos. São novas iniciativas que estão se consolidando num sistema público de televisão estatal, afirma Beto Almeida ao questionar: “Quais são as iniciativas que podem ser feitas sem o apoio, a participação direta, a sustentação e a relação com o Estado, e que sejam de natureza democratizadora? Onde é que o mercado está possibilitando democratização da cultura e da informação?”.

‘Telesur vai bem, obrigado’, mas os desafios ainda são muitos: aprimorar a qualidade dos conteúdos e imagens; expressar na programação as culturas, valores, interesses e sonhos de emancipação dos povos latino-americanos, visando à construção de um futuro promissor e livre de toda forma de império. Rafael Villa acredita também que Telesur precisa firmar-se para além de conjunturas de governo e Efendy Maldonado destaca a necessidade de a emissora apreender dos processos históricos e dos conhecimentos comunicacionais para tornar-se componente vital da cotidianidade latino-americana, “penetrando nas mentes e corações de modo respeitoso e solidário”.

Mas para uma emissora com apenas quatro anos de existência, pode-se dizer que Telesur já foi bem longe, dando mostras de que veio para ficar, e incomodar.


[i] Carlos Aznárez. Encuentro Latinoamericano vs Terrorismo Mediático. 2008, p. 128. O livro traz as exposições dos participantes do encontro de jornalistas e pesquisadores da América Latina, em Caracas, Venezuela, dias 27 a 30 de março de 2008, data em que se realizava, também ali, uma reunião da Sociedade Interamericana de Imprensa –SIP. Tradução livre.

[ii] Ver filme Fraude, México, 2006, de Luis Mandoki.

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