Mídia e Mílicia

1 de julho de 2008 Processocom

Foto: Marco Fernandes

Escrito por Ivana Bentes, pesquisadora de cinema, audiovisual e arte da Escola de Comunicação da UFRJ. Texto publicado na revista Carta Capital.

 

É grave um jornal ou jornalistas serem chantageados, torturados, tolhidos em sua função de investigar, mas ninguém se pergunta porque na ficção a novela das oito que terminou, Duas Caras, mostrava uma favela bem resolvida sob o comando de uma “milícia do bem”, romantizada e glamourizada na figura de Antonio Fagundes, o Juvenal da Portelinha, líder da “milícia legal” que seriam “diferentes” dos milicianos que torturaram e expulsaram jornalistas da favela do Batan, em Realengo, aqui no nosso Rio de Janeiro.

Mas afinal o que tem em comum a Mídia e a Milícia? Não podemos esquecer que a mídia hoje é uma espécie de “primeiro comando simbólico da capital”. É identificada como um lugar de poder, que pode se usar tanto para aprofundar a democracia quanto para golpeá-la. Não só a milícia pratica a ilegalidade, como também a própria mídia, hoje, atua nessa zona obscura entre o legal/ilegal, ético/anti-ético, utilizando métodos policiais como as câmeras escondidas e grampos telefônicos, nas suas “investigações”, nem sempre neutras ou desinteressadas.

Essa invasão da privacidade, segundo o contexto, pode ser tão grave quanto outras aberrações, como a tortura. A sociedade deve questionar tanto os métodos policiais quanto os midiáticos, colocar em questão o corporativismo da polícia, da mídia e da milícia.

A importância dada ao debate acerca da segurança dos jornalistas e da liberdade de imprensa não deveria obscurecer a crueldade da disseminação da tortura policial, real ou simbólica, subjetiva. Práticas de ostentação de poder que podem afetar qualquer um.

Quando a vítima de tortura é o cidadão comum, que não faz parte dos círculos do poder simbólico, como os jornalistas, não encontramos o mesmo nível de indignação. Pouco se fala sobre o morador que também sofreu com os atos de tortura e se encontra desaparecido. Na mídia, a fonte primordial de informações sobre as favelas, ainda é a própria polícia, o que só complica, quando a policia se mistura com as milícias ou a mídia virá lugar de negociação e produção de crise e de poder.

MIDIATIVISMO e MIDIA LIVRE

Daí a importância dos novos produtores de mídia, midiativistas e midialivristas, que produzem uma outra comunicação sobre as favelas e periferias, deslocando os discursos do medo e do terror que simbolicamente exilam a favela e criam um estado de exceção, real e simbólico.

É ai onde a mídia tradicional não consegue entrar que se deve fortalecer essas redes, blogs, sites, observatórios, “Pontos de Mídia”, como o Observatório de Favelas da Maré, a CUFA (Central Única das Favelas) em Cidade de Deus e em favelas no Brasil todo, o Nós do Morro, no Vidigal, centenas de coletivos de mídia em todo Brasil. Redes que neutralizam o terror e o medo, que criam uma inclusão subjetiva das favelas e periferias na comunicação da cidade, neutralizando o clima de terror que abole o direito de enunciação.

Entre esses novos fazedores de mídia, uma das experiências mais singulares é o CANAL** MOTOBOY, em que os motoqueiros fazem a emissão de vídeos, fotos, imagens e texto por celular de toda a grande São Paulo, durante sua jornada de trabalho ou lazer. Vão mapeando a cidade, seu fluxo, sua deriva, seus bons encontros e também terríveis acidentes de moto e carro (condições adversas de trabalho), mapeando vias e vidas, viadutos, jardins, automóveis, pessoas e paisagens. São os Motoboys de SP fazendo mídia e formando para mídia, o exemplo mais radical de autonomia e liberdade pela mídia.

O Canal Motoboy, o Nós do Morro, CUFA, Cubo Vídeo, Observatório de Favelas, Festival Visões Periféricas, Oficina de Imagens, professores, estudantes, jornalistas, midialivristas, radialistas, produtores de audiovisual, fazedores de políticas públicas estiveram reunidos no I Fórum de Mídia Livre, que aconteceu nesse fim de semana, dia 14 e 15 de junho de 2008 na Escola de Comunicação da UFRJ.

São os nós da rede se ativando e despertando para um contexto radical em que a mídia explode com o corporativismo e se torna biopolítica, se torna vital.

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