Quantidade de produção não é o único indicador de excelência acadêmica, artigo de Marcelo Leite

7 de outubro de 2007 Processocom

Nome e renome

marceloleite.jpgMARCELO LEITE é jornalista, colunista da Folha de S.Paulo e autor do livro “Promessas do Genoma” (Editora da Unesp)

 

Existem no Brasil 27 instituições cujos pesquisadores publicaram pelo menos cem artigos em periódicos científicos internacionais de primeira linha, como “Nature” ou “Science”, em 2005. Segundo levantamento de Rogério Meneghini na base de dados Web of Science, duas universidades paulistas estão no topo da lista: USP (4.170 artigos) e Unicamp (1.569).

Nada de muito novo aí. Todo mundo sabe que USP e Unicamp ocupam a linha de frente, ao lado de UFRJ (1.267 artigos), Unesp (1.166), UFRGS (971) e UFMG (875), para ficar na casa do milhar. Quantidade de produção, porém, não é o único indicador de excelência acadêmica.

Meneghini estuda esses indicadores há anos e se tornou um especialista em “cientometria”, como se diz. Ele pesquisou também o impacto desses artigos todos, medido pelo número de citações que angariaram. O raciocínio é que as contribuições científicas mais importantes são também aquelas que outros pesquisadores incluem nas suas notas de rodapé.

Com base nas duas quantidades, Meneghini obteve a média de citações por artigo em cada instituição, um indicador razoável de sua capacidade de produzir ciência relevante. Neste caso, o ranking se altera consideravelmente. Em primeiro lugar aparece agora o Instituto Butantan, de São Paulo, cujos 135 artigos do ano 2005 geraram até o mês passado um total de 408 menções (média de 3,02 citações por trabalho).

Em seguida vêm Unifesp (2,94), USP (2,89) e -surpresa- UFSM (2,80). Já ouviu falar? Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. De lá saíram 267 artigos em 2005, mais que do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, com 214) e da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz, com 229), nomes com os quais o leitor deve estar mais familiarizado.

Por falar em nomes, não é de todo improvável que as instituições mencionadas venham a questionar o levantamento com cifras divergentes obtidas na mesma Web of Science. Bases de dados são bases de dados -computadores e programas que só localizam aquilo que o freguês mandar procurar. Se pesquisar “Univ São Paulo”, vai dar com 3.689 artigos; se “USP”, com 561.

Se a soma 4.250 -e não 4.170, como no primeiro parágrafo- soa estranha, mais estranha ainda é a razão por trás
dela: a instituição pode aparecer de maneira diversa na afiliação institucional indicada pelos autores de um mesmo artigo. Nem eles se preocuparam em padronizar a referência, nem os revisores do periódico corrigiram a discrepância óbvia.

No caso da Unicamp, Meneghini arriscou três grafias: “Unicamp” (692 artigos), “Univ Estadual Campinas” (1.080) e “State Univ Campinas” (241). É pouco provável que rankings internacionais, como o da Universidade Jiao Tong de Xangai incensado pela revista “Economist”, levem em conta essas variantes nos nomes, prejudicando o renome, ou pelo menos a visibilidade, das instituições brasileiras.

Com seus 4.170 artigos em 2005, a USP não chega nem aos pés da campeã norte-americana Harvard (9.003 trabalhos). Tampouco chega a fazer feio diante da vice britânica Cambridge (4.748). Sua média de 2,89 citações por artigo, porém, não alcança um terço da de Harvard (9,91). Tal escore foi obtido com quase 90 mil menções na literatura científica à usina acadêmica instalada às margens do rio Charles, em Cambridge, Massachusetts (EUA). É mais que o dobro de todas as 27 do ranking nacional -juntas. Com o nome que for.

(Fonte: Ciência em dia)

 

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